ESC2013: Crónica sobre a final da Eurovisão - por Gonçalo Coelho



Adeus, melhor Eurovisão de sempre!

        Escrevo esta crónica num misto de tristeza, alegria e ânimo. As emoções desta semana eurovisiva estão ainda muito presentes e manter-se-ão comigo por mais alguns dias. Esperei, tal como presumo que todos vocês fizeram, um ano inteiro por estas duas semanas tão importantes; vibrei com a primeira semifinal, fiquei felicíssimo no dia da segunda e aproveitei ao máximo a grande final do sábado passado. 
        Estou triste, como disse, por causa disso mesmo: esperei, esperei, esperei, vi, desfrutei, e acabou.
        Recomeça agora a espera por mais uma edição. Por que será que o tempo passa tão depressa em maio e tão lentamente no verão? Queria aproveitar mais tempo o Festival, viver novamente os momentos maravilhosos que só os fãs sentem… Ainda assim, estou bastante feliz: ganhou uma canção lindíssima, e a edição de 2013 foi extraordinária. Já me explicarei a este respeito. Sinto ânimo, igualmente, para não deixar de ouvir e cantar Eurovisão e pensar nela todos os dias. Fã que é fã mantém o espírito todo o ano. Estou pronto para não o deixar adormecer nos próximos meses.
       Antes de mais: tack så mycket, Sverige! O Festival Eurovisão da Canção 2013 foi, e tenho perfeita consciência do que vou dizer, o melhor de sempre. Já houve festivais muito bem pensados com belíssimas canções, mas o deste ano superou esses e excedeu grandemente as minhas melhores expetativas.
      Não gostava de muitas músicas antes do começo dos ensaios (umas quinze, na melhor das hipóteses). Saio do Festival a gostar de quase trinta, e a conseguir suportar outras quantas. Não concordei com as escolhas que muitos países fizeram, mas vejo agora que foram bastante acertadas e que só acrescentaram qualidade e brilho à competição. No fundo, o que esta Eurovisão me trouxe foi a capacidade de dar o benefício da dúvida e de esperar até ao momento certo para avaliar a qualidade de um tema.


       Pegando no que disse há pouco: mas que grande, GRANDE festival. A SVT está, de um modo geral, de parabéns. Vamos começar com os aspetos técnicos:
        Excelente palco. No início, quando vi as fotos, achei-o pequeno e muito estranho, mas, depois de ter visto 39 canções em cima dele, e outras tantas atuações, concluo que foi um palco muito bonito, que resultou bem em TV e na arena, que permitiu atuações diferentes graças aos muitos efeitos possíveis. Não deixou de ser um palco mais conservador (faz lembrar alguns dos anos 90), mas por vezes o que é clássico é uma aposta ganha.
      Nota muito positiva para as projeções utilizadas. Nos anos em que os palcos foram à base de LEDS a pobreza de imagens era inenarrável, por isso acho bem que continuem a projetar os cenários. Sai mais barato e o espetador agradece.

 

       Gostei bastante dos grafismos. Adorei a borboleta e o facto de se transformar nas bandeiras dos países, gostei das cores utilizadas e da sobriedade. Foi bom ver um design diferente do dos dois últimos anos, e também uma forma diferente de se revelar os países apurados nas semifinais.


      Uma ideia fantástica, a de podermos conhecer os artistas no seu ambiente “natural”, antes de subirem ao palco. Os postcards estavam muito bem feitos e a banda sonora utilizada neles foi bem escolhida.
       Todos os momentos de abertura e de intervalo forem bem construídos e tinham interesse. Não gostei somente daquele que abriu a segunda semifinal (acho que os números de dança já tiveram o seu momento e agora é preciso mais). A SVT, com a experiência que tem dos momentos intercalares do Melodifestivalen, soube como fazer as coisas. Adorei particularmente a abertura da final. Foi emocionante, e certamente um motivo de orgulho para os países participantes, ver os seus artistas a desfilar em direção ao palco com as bandeiras, como numa cerimónia de abertura de uns Jogos Olímpicos. Foi épico. Os cantores de repente tornaram-se quase heróis, eram o rosto da nação inteira e é esse o espírito da Eurovisão! Bravo!


        Um grande aplauso também para Petra Mede! Uma apresentadora cheia de vida, que sabia falar bem inglês e francês e que não falhou uma única vez! Gostei da mistura de seriedade com divertimento e da postura elegante que adotou. Abafou completamente os apresentadores (?) de Baku e os tão aclamados (nem sei como) de Düsseldorf. Quero vê-la novamente no Melodifestivalen!
        Quem, pelo contrário, saiu completamente abafado foi o repórter escolhido para a Green Room. Eric Saade pode ser um moço simpático e querido dos eurofãs, mas o Björkman e companhia que entendam uma coisa: nem todos os cantores são bons como apresentadores. Espero não mais levar com ele num concurso qualquer. Eric, fica-te só pelas cantigas!


         Ainda que a organização faça um bom trabalho, o resto fica sempre dependente dos artistas. Se em anos anteriores vimos atuações mal planeadas e/ou executadas, desafinações épicas, vestidos memoráveis pela sua horribilidade, passos de dança inesquecíveis de tão cómicos que eram, este ano, felizmente, não vimos nada de mau. É certo que há sempre de tudo num festival destes, mas não vimos nada de verdadeiramente terrível em palco, nem ouvimos artistas que desafinaram muito. Parece quase que houve um acordo entre os países e a SVT para que ninguém baixasse o nível do espetáculo.
         A primeira semifinal foi a que teve melhores músicas (acho que é uma ideia consensual). Por essa razão talvez consideremos os seus resultados mais justos, já que havia mais do que dez boas músicas. 

       Analisando as classificações divulgadas pela EBU, vemos um top 3 sem nada de novo: Dinamarca, Rússia e Ucrânia (a segunda favorita a deixar aqui patente que, afinal, não devia ir muito longe…). Segue-se um 4º lugar também esperado e justo, e depois um 5º completamente inesperado. É a primeira surpresa da classificação. Ficámos todos, penso, bastante surpreendidos (positiva ou negativamente) com o apuramento da Bélgica, mas acho que o maior choque foi saber que Roberto conseguiu um top 5. Para os vizinhos, que têm em comum a má sorte na Eurovisão, não se zangarem, a Holanda obteve o mesmo número de pontos e conseguiu um apuramento seguro (ainda que, no meu ver, merecesse mais). Sem surpresas seguem a Bielorrússia e a Irlanda, e depois em 9º surge a Lituânia, esta sim a passagem mais estranha e dispensável da semifinal. Acho que todos conseguimos encontrar uma música nas eliminadas melhor que a da Lituânia; os jurados, devem ter sido eles a ajudar, lá sabem o que querem… Para concluir, passou a Estónia, uma das melhores da noite, ainda que não previsível. 
           Em relação às eliminadas, nenhuma grande surpresa. A Sérvia tinha de ser a 11ª classificada, e o Montenegro (que surpreendeu até os mais descrentes) conseguiu uma 12ª posição, bastante animadora. De resto, o único choque foi mesmo o lugar obtido pela Áustria, uma das canções que todos davam como certa na final, que não foi além do 14º lugar. A Eslovénia, tal como no ano passado, foi o patinho feio dos Balcãs e acabou em último.
       Em relação à segunda semifinal, aquela que quase todos apontavam como a mais fraca, as surpresas foram, claramente, maiores. Sem grandes favoritos a competir e com muitas canções medianas ou fracas, havia mais espaço de manobra para elas e maior oportunidade para sermos surpreendidos. Foi o que aconteceu.
          Em relação ao top 3, acho que a maior surpresa é a Grécia. A canção era boa e a performance foi excelente, mas ninguém pensava que os júris fossem cair na cantiga deles. Quem esperava um 4º lugar para Malta e um 5º para a Roménia? Estes eram países que apareciam timidamente em algumas previsões ou sondagens, mas beneficiaram de bons diretos e consolidaram a sua passagem. A outra surpresa chega na 7ª posição: a Arménia, que todos pensávamos que fosse falhar novamente o apuramento, consegue tranquilamente passar à final, o mesmo acontecendo com a Hungria (esta sim, e embora ame a canção, foi a grande surpresa da semifinal). Os últimos dois lugares foram ocupados por canções que supunhamos, à partida, conseguir um apuramento de olhos vendados. Acabou por não ser assim tão fácil.
         Fico triste por ver São Marino tão perto e não conseguir a passagem. Valentina merecia desta vez. Não esperava classificações tão altas da Bulgária, que continua perto dos lugares de apuramento mas nunca consegue, e da Suíça, que ficaram à frente da muito apreciada canção israelita. Os últimos lugares são os esperados. Tenho pena da dupla macedónia, e de certa forma também dos letões, que mais uma vez ficam atrás de todos os outros países, fechando a tabela. Um dado curioso: a Islândia, que passou em 6º lugar, recebeu votos de oito países, sendo que seis deles atribuíram 10 ou 12 pontos.


        O leque de finalistas, assim, não foi muito chocante. Acho que houve variedade a nível de géneros, mas não houve uma boa distribuição das canções pelas duas metades. Sei que o sorteio não pode ser manipulado, mas as preferidas ficaram quase todas na segunda metade, deixando a primeira não tão interessante como era suposto.
        Falando da distribuição de canções, até entendo a lógica que motivou a SVT a eliminar os sorteios. De facto, é mau para os países e para os espetadores quando temos de levar com quatro baladas seguidas, ou quatro canções uptempo (como, aliás, aconteceu em 2011). Acho que todos beneficiam com isso, por isso apoio a ideia. É preciso é que a SVT, ou quem venha a seguir organizar o concurso, escolha de forma honesta. Os lugares em que a Geórgia calhou não me parecem muito inocentes…
          Ainda assim, ainda que desequilibrado  foi um bom desfile de canções. Gostei imenso da gala, e, embora 26 temas pareça muito, não foi nada cansativo. Não houve grandes diferenças entre as performances das semifinais e da final; a Geórgia, a Bielorrússia e a Noruega melhoraram as suas prestações vocais, sendo que o belga esteve mais confiante e solto também. Não sinto que ninguém tenha piorado.

 

         Em relação aos finalistas diretos, acho que estiveram todos, exceto a Espanha, bastante bem. Tive pena da vocalista dos ESDM, embora já esperasse um desfecho daqueles.
         Pena o percalço do primeiro refrão dos Cascada, mas a vocalista compensou no final com imensa energia e efeitos cénicos estrondosos. Sentiu-se a vibração e, como minha favorita, deixou-me cheio de orgulho.










         Amandine e Marco Mengoni estiveram ambos bastante bem, obviamente cada um no seu estilo. Fizeram o que tinham a fazer e não devem ter deixado ninguém desiludido.










         Foram três minutos de classe e profissionalismo, os da atuação de Bonnie Tyler. A representante do Reino Unido não teve grandes falhas vocais e fez uma atuação limpa e honrosa. Adorei o efeito de luz do palco e as luzinhas na plateia.
         Por fim, a prestação do rapaz da casa, Robin Stjernberg, foi também competente o suficiente para honrar a Suécia. Não era, contudo, um tema à altura da sua antecessora.










        Findas as atuações tornou-se óbvio que a vitória estaria entre a Dinamarca e o Azerbaijão. Desde sexta-feira que eu apostava nestes dois países e acabou por se confirmar. A restante concorrência auto-imolou-se: a Ucrânia tornou-se ridícula com a inclusão do gigante, o italiano devia ter mais qualquer coisa a acontecer em palco (podia começar por ter um piano), a Rússia não tinha o fator X que a faria vencer (era apenas bonita), a Noruega não tinha uma música de massas. 
        Ganhar a Dinamarca é a vitória de um tema comercial e de qualidade, pelo menos o suficiente para a canção aparecer nos tops de vendas e deixar os europeus a falar mais um pouco sobre a Eurovisão. Pode não ter o impacto que teve “Euphoria” (também é difícil), mas certamente sair-se-á bem. Não duvido de que tenha sido uma vitória consensual entre o júri e televoto.


            Foi um top 5 bastante bom e justo, pelo menos se comparado com o dos últimos dois anos. Não contava que a Grécia fosse ficar em 6º, mas ainda bem que o conseguiu (e penso que foi muito bem votada pela júri também), e talvez esperasse mais da Itália e da Holanda (sempre tive a secreta esperança de que “Birds” conseguisse ser uma espécie de “Me and My Guitar”, ou de “Suus”, e surpreendesse na votação). 
           O resultado alcançado por Malta (8º lugar) é surpreendente, mas ao mesmo tempo animador: se eles conseguiram, então Portugal consegue também. Outras surpresas vêm de seguida: o 10º da Hungria, o 12º da Bélgica e o 13º da Roménia – eram temas que nem todos pensavam ter hipóteses, e o certo é que ficaram bastante bem.
          Duas das mais apreciadas, Suécia e Geórgia, fecharam o top 15. Esperávamos todos mais para estas duas canções. Ainda assim, e face a todas as polémicas que giraram à volta da Geórgia, o lugar é até bem atribuído. Já conseguiram melhor sem recorrerem a importações; é uma questão de trabalharem.
           Os lugares seguintes, da Bielorrússia, Islândia e Arménia, não constituem grande surpresa. Era óbvio que a Arménia se ia safar minimamente bem. É um daqueles países que jamais ficarão a zeros.
        Segue-se uma das desilusões da noite: os britânicos queriam e mereciam mais do que um 19º lugar.  Caramba, era uma canção agradável! A atuação foi linda e sem grandes falhas vocais (será que já se esqueceram das desafinações épicas dos Blue ou a sonolenta interpretação do Engelbert?). E além disso… era a Bonnie Tyler! Não digo que a senhora tivesse de receber uma montanha de votos, mas um pouco mais não seria de todo injusto para o Reino Unido!
          Daí para baixo nada mais merece grandes reparos, à exceção do lugar alcançado pela Alemanha. Era a minha favorita. Mas mesmo que não fosse, qualquer pessoa com olhos e ouvidos via que aquilo era, no mínimo, material para top 15. Não querem atuações fortes e temas orelhudos e comerciais? Escutem “Glorious”! 18 pontos? Really? Houve claramente um boicote, ou aos Cascada (por serem mais reconhecidos, o que choca com a ideia de que o Festival é para cantores em início de carreira), ou à própria Alemanha, talvez pela pessoa que a governa. Seja como for: é a injustiça do ano. Cascada foram roubados.
           Tenho pena dos lugares alcançados pela Finlândia e Irlanda, ambas mereciam mais.


        Sempre achei que ver um Festival sem Portugal até ia ser algo que não me ia fazer confusão nenhuma, mas, ao ver as emissões em direto, senti de imediato a falta da nossa bandeira, da nossa língua, da nossa voz, ali no meio das outras. Custou-me não poder votar e ajudar os meus preferidos, custou-me ver a Europa em festa e nós a fazer de menino tímido, que vê ao longe e não tem forma de se juntar. 
         Espero francamente que voltemos para o ano. Não é a mesma coisa sem Portugal. Um ano ainda se pode tolerar; dois já não. A RTP que veja que as audiências do único programa emitido em direto foram quase iguais aos do ano passado, e isso é genial a partir do momento em que não há promoção, nem canção nossa a concurso, e numa fase em que a RTP praticamente não tem espetadores. Vejam, meus caros senhores da nossa televisão: a Eurovisão respira ainda em Portugal, e pode muito bem ser um dos vossos poucos trunfos para que, em duas ou três noites de maio, consigam boas audiências! Não sejam parvos e aproveitem! Vamos competir, vamos mostrar que também temos talento aqui! FORÇA!


        P.S.: para o ano, das duas uma: ou escolham outro comentador, ou peçam à Sílvia para se conter. É certo que comentador é aquele que faz comentários, normalmente críticos, mas atenção: o que acho que todos pretendemos é alguém que apresente o Festival em português, ou seja, a versão lusa da Petra Mede. Não temos de saber que a Sílvia não encontra o lado bom da música do Azerbaijão ou que acha que a cantora da Bielorrússia não tem presença de palco. Ok?

Se dig snart, Europa!
[Até já, Europa!]


Imagen: Google/Eurovision.tv/Vídeos: Youtube
20/05/2013

2 comentários:

  1. Adorei a cronica. Concordo em quase tudo, só não concordo em dois aspecto:
    1º Quando se diz: "O resultado alcançado por Malta (8º lugar) é surpreendente, mas ao mesmo tempo animador: se eles conseguiram, então Portugal consegue também." Não esquecer que Malta é considerado o país que ainda não venceu com mais sucesso no ESC, ao contrário de Portugal, que é considerado como um dos países que mais falha.
    2º As criticas em relação à Sílvia Alberto. Ela esteve muito bem. Ela podia dar-se ao luxo de fazer dos comentários que fez porque, primeiro, Portugal não competia nem votava, segundo, porque ela não disse nenhuma mentira. Além disso, aquilo que ela fez, fazem em outros países. Reparem que, quando Portugal está a competir, não comentários deste género, além disso não é a primeira vez que ela faz isto. Se a querem trocar, troquem-na pelo Pedro Granger ou pelo comentador de 2009 (que não sei o nome). Evitem o Jorge Gabriel e o comentador de 2010, que estiveram péssimos.

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  2. Adorei! Concordo com a maioria das opiniões! Parabéns!

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