ESC 2014: Crónica sobre a final da Eurovisão - por Catarina Gouveia




"The Eurovision Song Contest is a project based on tolerance, acceptance and love"

   Fui "digerindo" as canções concorrentes à medida que foram saindo com alguma insatisfação.Nunca houve aquele "clique" que costuma haver todos os anos, que me tenha feito ficar loucamente agarrada e a fazer figas por essa canção. Hoje, findada a 59ª edição do Festival Eurovisão da Canção, mantenho a opinião de que este ano foi um pouco pobre em termos de qualidade das canções. Isto refletiu-se, aliás, no facto de não se saber até antes do início do festival quem iria ser o vencedor - algo que não acontecia há alguns anos. As músicas não eram más, mas não houve nenhuma que se destacasse ao longo da fase de seleções nacionais.
      Isto só prova aquilo que eu apoio desde sempre: a Eurovisão não é só um festival de canções. Nunca foi, nunca será. A Arménia, segundo as apostas, seria a vencedora. Porquê? Porque a música era, realmente, boa - de todas, chegou, a certa altura, a parecer-me a melhor. No entanto, a teatralidade e a diferença da Conchita sobrepôs-se à atuação (boa, mas pouco marcante) da Arménia.  Porque a Eurovisão é assim. Podem ter tudo pensado, mas o tudo resume-se àqueles minutos em palco. Se assim não fosse, os concorrentes não investiam em indumentárias marcantes, em pirotecnia e noutros elementos cénicos.
     
      
      Numa visão geral, e numa perspetiva pessoal, este festival, em termos de organização, deu dez a zero a todos os festivais feitos desde 2009. Num ano em que não havia grandes expetativas - não tivesse este sido feito num "barracão" - o palco estava simplesmente fantástico. Num espaço em que nada podia ser pendurado no teto, a organização dinamarquesa criou um espaço brutal, que resultou mesmo bem nos nossos ecrãs. 
      O trio de apresentadores também me surpreendeu. Ainda que pudessem estar pouco à vontade em certas alturas, penso que foram muito bem escolhidos e que souberam lidar com a apresentação de uma forma séria e divertida ao mesmo tempo - a conversa entre a Lise Rønne e a Conchita na green room deu cabo de mim!


      Devo confessar que fiquei um pouco desiludida com os interval acts e até mesmo com as aberturas.  Nada de grandioso, nada que fosse marcante e que nos colocasse agarrados ao ecrã. No entanto, tenho de salientar a atuação da Emmelie de Forest com o hino desta edição do festival, "Rainmaker". O efeito que a água deu a esta atuação deixou-me de boca aberta, estava mesmo fantástico!


      Há ainda que realçar os postcards de apresentação de cada concorrente desta edição. Uau! Os concorrentes tinham a função de criar a bandeira do seu país de uma forma original e com elementos caraterísticos. Eu nunca estou atenta a estas apresentações, mas este ano estava sempre curiosa por saber o que é que cada um estava a criar. Entre os meus favoritos, a bandeira em bodypainting da Suzy, a bandeira de vestidos da Conchita e a bandeira com autocarros da Molly.
      Este ano até a Austrália foi convidada! A Austrália, um país que apoia muito mais a Eurovisão do que muitos países que participam no concurso, teve o seu espaço neste festival. Muito se falou, muito se especulou e saiu aquilo. Aquilo, uma atuação super aborrecidinha que não aqueceu nem arrefeceu ninguém. Oh well... Espero que voltem a pisar o palco eurovisivo com algo que seja mais marcante.


      No que toca a semifinais e respetivos resultados este foi um ano igual aos outros. Com surpresas, com injustiças. Eurovisão igual a si mesma, simplesmente. Quanto à primeira semifinal, não posso não começar por falar de Portugal.Vi potencial nesta canção desde o início. Apesar de saber que podia ser um pouco antiquada para o que se tem visto pelo festival, sabia que "Quero ser tua" ia acordar a arena e todos os telespetadores. E isso aconteceu. Um honroso 6º lugar no televoto, nesta que era uma semifinal complicadíssima, que ninguém nos tira. A barreira que nos separou da final - um ponto - acaba por significar muito pouco. Não me lembro da última vez em que apoiei o meu país na Eurovisão da maneira que apoiei este ano. Não me lembro de ter uma equipa tão competente - com um excelente assessor, Vasco da Câmara Pereira, tão prestável e incansável. Orgulho de ser portuguesa, orgulho de ver a nossa bandeira naquele palco, orgulho por ouvir a arena a gritar por Portugal quando apenas faltava saber-se o último finalista. 
    Ainda sobre esta semifinal, não posso deixar de referir a passagem de São Marino e do Montenegro. A primeira de sempre, destes países. A meu ver, A Albânia e Portugal deviam estar no lugar destes dois, mas no fim de contas penso no que esta passagem significa para estes países. A Valentina ficou tão feliz e a felicidade dela foi, de facto, contagiante. O resultado da persistência dela deu frutos e eu só posso é estar contente por ela.


      Quanto à segunda semifinal, devo dizer que me revoltou mais um pouco. As canções da Finlândia e de Malta são daquelas que me deixam mesmo sem paciência para sequer reagir. A meu ver, não valiam nada e tiraram o lugar de grandes músicas. A Macedónia tinha uma das minhas canções favoritas. No entanto, tenho de admitir que aquela atuação foi uma autêntica confusão que resultou muito mal. A Irlanda e, sobre tudo, o Israel, tiveram atuações irrepreensíveis. A Mei Finegold, a meu ver, tinha a melhor voz do ano e uma música muito poderosa que não merecia, de todo, o penúltimo lugar da semifinal. Penso que o Israel tem vindo a tornar-se num "Portugal II".
      A final foi preenchida por grandes canções e outras não tão grandes. A Ucrânia, criticada por ser uma música muito má (não para mim, mas pronto) e por ter uma "roda de hamster" abriu o festival com uma das melhores atuações. O Teo da Bielorrússia teve uma atuação simples mas engraçada, com uma boa coreografia. O Azerbaijão com a pior aposta e resultado de sempre. A Islândia, apesar de não ter uma música que me agradasse, passou uma boa mensagem com uma das performances mais divertidas. A Noruega a ganhar, para mim, o prémio de música mais overrated de sempre. A Roménia com a minha dupla favorita de sempre com uma prestação bem inferior à de 2010. A Polónia a voltar a marcar presença na final com a função de ensinar os espectadores a fazer pão e a lavar roupa. A Grécia com uma das suas piores participações de sempre. A Suécia a voltar a provar que é o país que mais apoia a Eurovisão com a Sanna a ser irrepreensível em palco. A Rússia com a performance mais awkward do ano. A Eslovénia a brindar-nos com um dos meus instrumentos favoritos e com um dos melhores cenários. A Suíça, uma das melhores canções do ano, dos únicos países que conseguiu usufruir do palco a 100%. A Hungria a dar a uma grande música uma performance "pequena". A Holanda a ser a surpresa do ano com uma atuação intimista e com uma canção que está a conquistar dezenas de países.


      Os big5 e anfitrião voltaram a ser uma desilusão. Sou sincera, apesar de a Itália e da França fazerem parte dos meus favoritos, ao vivo desiludiram-me um pouco. Senti que faltava algo, faltava treino e investimento numa atuação marcante. E isso comprovou-se com os resultados. Até mesmo o Reino Unido, canção da qual não gostava minimamente mas que entendia o porquê de ser uma das favoritas, espalhou-se ao comprido com uma atuação pobre.


      Finalmente, há que falar da nossa grande vencedora. Apesar de não ter nenhum grande favorito até ao início da Eurovisão propriamente dita, isto prontamente mudou após a segunda semifinal. A única canção que me arrepiou da cabeça aos pés. A única atuação que transmitia garra e vontade desmedida de lá estar. A única concorrente que tinha em si a mensagem que a Eurovisão quer passar. A união, a tolerância, a luta pela igualdade. A necessidade de sermos quem queremos ser. Nós mesmos. Independentemente de todas as condicionantes que possam existir. 
      Nunca uma vencedora me deixou tão feliz como a Conchita o fez. Por tudo o que ela significa, por ser uma pessoa que me deixa completamente derretida ao falar em entrevistas. You go girl!
    Espero que, agora que a Eurovisão está na boca do mundo, este concurso volte a ganhar a relevância que um dia teve e que merece, mais do que qualquer evento que exista por aí.
      E fecha-se aqui mais um capítulo eurovisivo, sendo esta a última peça que escrevo a respeito da Eurovisão de 2014.  Com um misto de emoções. Com nostalgia e já com muitas saudades. Com vontade de acordar em Maio de 2015. Foi um grande, grande ano. Obrigada, Copenhaga!

Vídeos: eurovision.tv


1 comentário:

  1. Também gostei desta crónica. Parabéns!
    Revejo-me em muitos dos comentários tecidos (em particular o facto da Áustria se ter tornado uma grande favorita - e com mérito! - logo após a segunda semi-final).

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