ESC2014: Crónica sobre a final da Eurovisão - por Diogo Canudo



Deixa-te só ficar por mais uns dias, 59ª edição.

       Não, não, não! Não vás já embora, Festival Eurovisão da Canção. Deixa-te só ficar por mais uns dias, 59ª edição. Que foste das que mais me impressionou, nos últimos anos... De facto, é triste ver que algo chegou ao fim, algo de que nós gostamos tanto... Mas as coisas são mesmo assim, e para o ano há mais: relembro que, em 2015, vão-se comemorar os 60 anos desde o nascimento do maior concurso musical e programa de televisão europeu.
       A edição de 2014, que se realizou na Copenhaga (Dinamarca), talvez tenha sido a minha favorita, em termos cénicos e visuais. Antes de a mesma se realizar, pensava que tínhamos uma das edições mais fracas, a nível musical - mas até neste campo me enganei: houve bastantes músicas que me impressionaram, e viu-se que todos os artistas encararam este desafio muito a sério. Há alguns anos tínhamos imensos cromos eurovisivos, e sentia que a Eurovisão perdia muito a sua essência, por também ser levada como uma brincadeira. Por ser o programa mais visto, talvez, do planeta, as pessoas devem ter alguma consideração pelo mesmo...


       O palco, talvez, não fosse o mais lindo e o melhor de sempre - no entanto, todos os efeitos visuais conferiram-lhe uma outra beleza - mais estética, e menos técnica. E a abertura do Festival foi muito boa, ao recordarmo-nos da música que venceu o ano passado: "Only Teardrops", de Emmelie De Forest. Notava-se que a cantora estava um pouco doente na abertura da semifinal, mas esteve capaz do papel que lhe coube. Aliás, as melhores extra-atuações foram mesmo dela - o "Rainmaker" foi mágico, com a entrada de todos os artistas a palco. Também um ponto positivo, mas não de destaque, para a atuação da australiana Jessica Mauboy. Já o resto das atuações foi bastante esquecível: por isso, um ponto negativo para a DR, emissora dinamarquesa.
       Tenho de felicitar, no entanto, a DR pela escolha dos apresentadores. Apesar de não terem sido melhores que a brilhante Petra Mede, que considero que foi das melhores de sempre a apresentar este concurso, os deste ano foram bastante competentes, e viu-se que estavam bastante ensaiados e à vontade com o que estavam a dizer. E, felizmente, pareceram naturais em frente ao ecrã - algo que não aconteceu, por exemplo, com os apresentadores de 2012. 


        O grafismo com o diamante, algo muito semelhante ao jogo The Sims, não foi um dos mais bonitos logótipos de sempre na Eurovisão; mas, por acaso, ficou tudo muito bem em televisão. Os grafismos das votações, das revelações dos finalistas e das apresentações das canções mostraram bom gosto e sobriedade. E o melhor de tudo foram mesmo os postcards, que estavam completamente incríveis e penso que foram os melhores de sempre do certame. Mais uma vez, a Eurovisão a superar-se!
        Um ponto positivo: a DR não pôs muitos encha-chouriços, e não se pôs a convidar artistas só porque sim. E fico contente por não terem posto um apresentador na Green Room: aqueles 3 desempenharam muito bem as suas tarefas.


       Incidindo-me na organização, foi no geral um bom serviço. Porém, alguns planos de câmaras desfavoreceram, e muito, as atuações. Além disso, achei, tal como aconteceu o ano passado, uma falta de respeito ao festejarem a vitória antes de divulgarem todos os votos. Se eu fosse um artista e estivesse em competição sentir-me-ia bastante revoltado.
       Por fim, é uma pena todas as polémicas que se criaram à volta da edição: da suposta manipulação de votos de alguns países, como a Geórgia, e acabando na guerra de Aram MP3 e Conchita Wurst - posso compreender que os dois tenham tido educações diferentes e tenham crescidos em ambientes e sociedades distintos, mas o Aram MP3 só perdeu com todas as declarações que fez sobre Thomas.
       Em relação aos resultados, 2014 foi um ano mais injusto, se compararmos com 2013. A segunda semifinal foi bastante superior à primeira, mais diversificada e que nos deu muito mais para ver em palco.


        Na 1ª semifinal, sinceramente, fiquei chocado pela não-passagem da Estónia. Não é qualquer um que faz todas aquelas acrobacias malucas, é preciso um enorme esforço vocal e corporal - se fosse eu, desafinava logo no primeiro segundo que desse uma cambalhota. Apesar de "Amazing" ser bastante wannabe, pelo menos merecia a final pelo todo o trabalho que a cantora desempenhou (e anoto que esta foi das atuações mais prejudicadas, a nível de planos de câmara). E fiquei bastante surpreendido pela passagem de São Marino e da Islândia. No entanto, hoje em dia, compreendo as suas passagens: a Islândia por trazer também uma mensagem forte, como a Conchita levou; e São Marino, porque Valentina disse que não voltaria mais ao ESC se não passasse desta vez à final. Como este último país é muito pequeno, só deve ter uma cantora lá: Valentina - e, para São Marino participar porque Valentina fez esse ultimato, a EBU lá fez essa vontade à mesma (brincadeira). Em relação à melhor da noite: foi mesmo a Holanda.


       Em relação a Portugal, fico triste pela não-passagem. Suzy esteve deslumbrante e conseguiu dar uma chapada às pessoas que diziam que ela não sabia cantar - no entanto isso não foi suficiente para a sua passagem. O palco estava lindíssimo e toda a composição do mesmo, com os bailarinos, e não só. Espero que a RTP não desista e que façamos parte da grande celebração dos 60 anos da Eurovisão: temos artistas muitos bons e que nos querem representar. Por isso, ponham-se já a trabalhar, por favor.


       A 2ª foi mais desesperante. No entanto sabia, para mim, quais as que mereciam a passagem. E acertei quase todas: aliás, acertei mesmo todas. Apesar de a melhor da noite ter sido mesmo a Áustria, e realço também a excelente prestação da Suíça, a maior desilusão foi mesmo a Irlanda - a atuação foi horrível e os desafinanços da vocalista foram assustadores: simplesmente, não estava à vontade com o tema. Já, a não-passagem da Lituânia, Geórgia e Macedónia eram mais do que previsíveis. E também considero previsível a de Israel, apesar de achar que merecia a passagem e de concordar com a insatisfação dos fãs pelo lugar que o país teve: os graves da cantora, apesar de serem perfeitos, não ficam bem em televisão, e a mesma era demasiado agressiva para o telespectador pegar no telemóvel e votar. Além disso, tem sido habitual não ver Israel na final...


       Em relação à Grande Final, temos um top 5 muito bom! A Holanda mereceu, sem dúvida, o 2º lugar (a segunda melhor música do ano), a Suécia o 3º (apesar de não ser fã da música, por achá-la demasiado overrated, tenho de admitir que a cantora e a sua qualidade vocal são irrepreensíveis), a Arménia o 4º (quer queiramos, quer não, "Not Alone" tinha o melhor instrumental do ano, e os efeitos em palco estavam muito bons) e a Hungria o 5º (há muito tempo que este país andava a merecer uma boa classificação, e András esteve impecável, com uma excelente atuação).
      Em relação aos BIG5 e ao país anfitrião: a França mereceu o último lugar - aquilo não é música para levar à Eurovisão e atuação foi demasiado estranha e pouco profissional - e a Alemanha já se esperava o lugar mediano que teve - apesar de eu ser fã da música e de ser das que mais oiço diariamente -. Além disso, não compreendo o lugar do Reino Unido, porque, de facto, Molly até esteve bastante bem ao vivo. Mas fico feliz por ver a Espanha, novamente, no top10, com uma grande diva eurovisiva, e a Dinamarca também: "Cliche Love Song" é uma música de que todos gostam. Já a Itália, a minha segunda favorita, foi uma desilusão, e por isso eu compreendo o lugar: Emma desafinou e foi demasiado estranha em palco, achei aquilo tudo demasiado - até mesmo para a irreverência dela:


       A Bielorrússia, apesar de divertida, a Islândia, apesar de trazer uma mensagem forte, a Polónia, apesar de ter trazido um grande êxito de 2014, e a Rússia, que trouxe a música mais overrated da edição, não mereciam os lugares que tiveram - muitas músicas que eram superiores a estas quatro ficaram atrás e isso é injusto.
       O lugar da Holanda também me deixa muito feliz: era das melhores da competição, e a junção daquela dupla é completamente genial. O mesmo acontece com a Ucrânia: apesar de todas as coisas que se têm vindo a passar neste país, a Maria conseguiu ser profissional e apresentar uma das melhores atuações da noite.
      Como lugares justos, destaco a Noruega, que foi bastante sóbria, a Finlândia, por trazer um rock de qualidade, a Roménia, que conseguiu manter o seu nível de classificação, e a Grécia, a Malta e São Marino, por não terem música para um melhor lugar... Como lugares injustos, destaco o Azerbaijão, adorei a naturalidade da cantora ao expressar-se vocalmente e gestualmente, o Montenegro, por trazer a música com mais detalhes étnicos da edição, a Eslovénia, por ter trazido uma grande voz e uma grande atuação em termos visuais, e a Suíça, por ter trazido um rapaz super multifacetado - merecia o top5, sem dúvida.
       Notou-se que este ano, apesar das polémicas das votações, houve um equilíbrio: os nórdicos ficaram bem, como alguns países centrais e alguns de leste. Só ficou mesmo a faltar os do Sul, que esses é quase sempre a mesma história... Acima de tudo, foi um festival bastante equilibrado, a todos os níveis. DR, muitos parabéns, e fico feliz por teres feito algo grandioso - já que 2001 foi uma podridão.
       Em relação à Áustria, a vencedora: continuo sem palavras... Estamos em pleno 2014 e é bom notar que, apesar de tudo, ganhou a melhor música e a melhor intérprete. A Eurovisão vai ter uma bela reviravolta nos próximos tempos, mas isto foi uma valente chapada para os países de Leste que não respeitam os direitos humanos, como a liberdade e a igualdade. Um vencedor, além de ter uma boa música, também tem de passar uma boa mensagem: e isso é o que a Conchita Wurst faz melhor. E é tão bom saber que a minha favorita ganhou, pela segunda vez - a primeira foi em 2012 com a The Queen Loreen e o seu mágico "Euphoria". Parabéns, Áustria. E, principalmente, por seres um grande exemplo: parabéns, Conchita!


Imagens: Google/Vídeos: Youtube
22/05/2014

1 comentário:

  1. Bastante completa e interessante de ser ler.
    Concordo, na generalidade, com as opiniões tecidas.
    Para mim, o grande "flop" de 2014 foi mesmo o não apuramento (e o miserável lugar na semi-final) de Israel - A injustiça da edição deste ano. Espero, sinceramente, que Israel não desista do ESC...

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