Crónica ESC2015: 'quando 200 pessoas decidem mais que milhões'



60.º aniversário eurovisivo? Mais uns anos e a Eurovisão está na idade da reforma, se é que esta não foi feita na mudança de milénio. Poderá esta reforma trazer-nos um worldvision? Acredito que mais tarde ou mais cedo, haverá novos participantes no festival e a Austrália deverá regressar no próximo ano. Tivemos uma edição dos 60 anos muito fraca a nível de organização e neste aspeto, ainda bem que para o próximo ano estamos de novo na Suécia. As apresentadoras foram mal escolhidas (quem é que se lembrou de pôr três mulheres sem piada nenhuma a apresentar?) e seria preferível deixar a Conchita sozinha no palco. Os planos de câmara com as bandeiras davam-me vontade de pegar num motosserra e os postcards eram péssimos. 


Coisas más à parte, falemos das coisas boas. Foi uma edição pautada pela grande qualidade vocal da maioria dos cantores. O que em janeiro parecia ser o pior festival de sempre, tornou-se até muito aceitável e fez da votação o grande momento da noite pela incerteza que se ia criando nas nossas cabeças. Chegou a altura em que todos tememos uma vitória russa. Não tenho nada contra a Rússia enquanto participante eurovisiva, mas "A Million Voices" merecia tanto vencer como eu, que nem participei. A Suécia passa para a frente da votação e "somos todos suecos desde pequeninos". "Heroes" é uma boa música, mas sem a performance não chegaria a lado nenhum. Não ganhou a melhor música, mas não posso dizer que Mans Zelmerlow não tenha sido um justo vencedor.


Do primeiro aos últimos lugares da tabela. Áustria e Alemanha ficaram com zero pontos. Sim, zero. Custa a acreditar, mas é verdade. "Black Smoke" era uma das minhas músicas preferidas muito pela força que Ann Sophie lhe dava em palco. Com a mudança de atuação deixei de gostar tanto da música, mas ZERO PONTOS

Também a anfitriã acabou a fazer companhia à Alemanha. Não percebi. "I Am Yours" não tem nenhuma "orquestração genial aliada a uma composição muito competente", como é o caso de São Marino segundo Ramon Galarza, mas é uma música agradável, moderna e radio friendly. Para não falar da grande voz do vocalista dos The Makemakes e do ambiente de "churrasco entre amigos" criado no palco. É possível que o que lhes tenha faltado fosse mesmo um porco no espeto distribuído gratuitamente pelos espectadores. Aí talvez angariassem alguns votos.

Também no fundo da tabela ficaram Espanha, França e Reino Unido. Quanto a Espanha, não precisei da carta do enforcado para perceber que iam ser o flop do ano. O Reino Unido podia começar a levar isto mais a sério que nós não nos importávamos nada. Lembram-se de "Standing Still"? Essa bela música composta por Jamie Cullum? Sim BBC, podem enviar o Jamie Cullum que nós agradecemos! E a França? A França foi uma das injustiçadas da noite. Se aquela música e, acima de tudo,  aquela interpretação não são para o top 10, não sei o que possa ser.


E Portugal? Portugal tinha uma música super esquecível. Boa para consumo interno e péssima para a Eurovisão e ainda piorou com aqueles coros ridículos. Se a atuação podia ter sido outra? Podia, mas nada nos ia pôr na final com uma música daquelas. O que é que está mal então? Nada! A RTP é que está certa e nós todos errados. Continuem a apostar neste formato de convidar pessoas que não percebem nada de eurovisão. Continuem a anunciar tudo em janeiro para as músicas serem feitas em cima do joelho. Continuem a não deixar que qualquer compositor envie as suas músicas. Continuem a apostar nos mesmos produtores que põem coros lindos nas músicas. Está tudo tão perfeito que é por isso que o método é o mesmo ano após ano. Para quê mudar o que já está tão bom?

E se a RTP pusesse os olhos em Israel? Quer se goste ou não (e eu duvido que haja muita gente que não goste), Israel trouxe-nos aquilo de que o Festival precisa: músicas modernas com um toque de tradicional. Ouvir "Golden Boy" remete-nos para os sons tradicionais israelitas ao mesmo tempo que nos transporta para uma época moderna. É por isso que Israel conseguiu regressar ao top 10 tanto tempo depois. Quando enviamos qualidade (musical), temos quantidade (de votos). Ah, e alguém que erga um estátua ao autor desta letra porque "and before I leave let me show you Tel Aviv" é dos versos mais geniais que já ouvi.


O Azerbaijão desiludiu muita gente. Entendo. Eu também esperava mais. Sei lá, esperava que no final ele se transformasse em lobisomem por exemplo. A mim só me desiludiu aquele 12.º lugar. Elnur tem a melhor voz que passou pelo palco eurovisivo deste ano, aliada a uma música muito boa, ao melhor fundo do ESC2015 e a uma performance excelente. Como é que o Azerbaijão ganha em 2011 mas só consegue o 12.º lugar com isto? Claro que "Hour of the Wolf" está longe de ser "genial" como o Chipre (sim, estou a citar o Ramon outra vez), mas merecia um top 10.

Por falar em injustiças, falemos da 10.ª classificada. Há mesmo pessoas que tenham votado na tenebrosa Sérvia? Há mesmo quem goste daquilo? Sempre me disseram que gostos não se discutem, mas abre-se a exceção neste caso, porque gostar disto não é, de todo, normal.

Por falar em músicas de que ninguém gosta... Ainda me choca  a não passagem da Dinamarca à final. Maioritariamente porque estava na semifinal mais fraca e tinha uma música animada. É pena terem ficado parados no século passado porque parecem-me uns rapazes simpáticos e engraçados. Eu mandava-os para a final, mas isso sou eu que sou antiquada. Por outro lado a Hungria, por exemplo, deu mais jeito na final porque tem de haver pausas para a casa de banho.


Montenegro tinha, citando esse vulto do FC que é Ramon Galarza, uma música "agradável". É claro que era "só" agradável. A meu ver faltavam-lhe uns coros com uns bons "eh oh eh oh", mas todos nós sabemos que, no que à produção de música eurovisiva diz respeito, Zeljko Joksimovic está a milhas do comentador português. 

Há quem diga que Johnny Logan é o rei da Eurovisão. Se ele é o rei, o Zeljko é o príncipe. Assim que anunciaram que era ele o compositor da música montenegrina eu pensei de imediato "vai ser a minha preferida". E não estava longe da realidade. Já no ano passado "Moj Svet" me convenceu e me deixou muito feliz com a passagem à final, mas "Adio" é ainda melhor, acho que tem uma mágica qualquer. Votei na semifinal e voltei a votar na final. Quando alguém me voltar a perguntar "o que é a eurovisão", vou mandar essa pessoa ver esta atuação. Sons tradicionais, letra em sérvio, atuação muito bem pensada e grande voz. Isto não é uma simples música, isto é Eurovisão, e ninguém a entende melhor que o Zeljko Joksimovic. Ter o melhor lugar de sempre é muito bonito, mas para quando uma regra que obrigue o sérvio a compôr todos os anos para o ESC? Para quando uma composição para Portugal? Até posso ir eu cantá-la, já que é impossível destruir o que quer que seja que venha da parte deste senhor!


Somos milhões todos os anos a ver a Eurovisão, não somos? Então porque é que 200 pessoas têm o mesmo poder de decisão que as restantes? Imaginam-se a viver num país onde fossem votar e o vosso voto se juntasse ao de um júri de cinco pessoas?  O esquema é este, mas não me lembro de resultados tão díspares desde que se introduziu o júri no festival. Sexto lugar para Itália? Sexto? Isto são as pessoas entendidas em música, certo? Pessoas entendidas como aquelas que deram à mesma Itália o 1.º lugar em 2011? No fundo todos sabemos que a Itália não ganhou porque a RAI não tinha interesse em organizar o Festival (como não teve com o JESC), e ainda bem que não. Estou a contrariar-me? Pois estou, mas quando me contrario a mim mesma tenho, na generalidade das vezes, um bom motivo para tal. Não acreditava muito na vitória italiana, mas disse que caso ganhassem, ia festejar para o marquês. Há pouco menos de duas semanas estive no marquês a festejar outra vitória (em  nada relacionada com o ESC) e não sei como é que escapei à fúria policial, portanto agradeço não ter de voltar lá enquanto me lembrar daquilo a que assisti (infelizmente) na primeira fila. Crítica social feita, a Itália merecia ganhar. Música excelente (apesar de muito mais fraca com os cortes), vozes excelentes (mesmo com aquela última nota) e atuação excelente (o simples é muitas vezes o mais eficaz). Se estou chateada? Estou. E hei-de continuar, mas agora "Gotta go, three minutes, bye bye".

 Vídeos: Eurovision.tv
29/05/2015

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