Crónica ESC 2015: 'Os 60 anos foram entregues ao país que mais investe na Eurovisão'



Mais um ano passou, e mais uma Eurovisão também. Por mais que agora o evento aconteça ao longo de uma semana, para um fã acérrimo como eu não chega! Apesar de esta edição não ter sido completamente fantástica, foi competente. Poderia ter havido mais espectacularidade já que se estão a comemorar os 60 anos da Eurovisão (um marco importante), e mais energia em algumas ocasiões. No entanto, o legado eurovisivo continuou a ser muito bem tratado pelos austríacos.

Em termos cénicos e visuais, a edição de 2014 arrebatou completamente o meu coração de fã. No entanto, 2015 teve a seu cargo um dos melhores anos de qualidade musical. Viu-se bases clássicas mas também originalidade e inovação. Muitas propostas deste ano foram pensadas para pôr o certame numa escala maior - e, por isso, foi a edição mais contextualizada musicalmente, consoante o cenário geral dos tops mundiais de música. Não houve coisas bárbaras, não houve personagens, e todos os artistas levaram o certame a sério.


Um ponto negativo para o palco. Simples demais e muito idêntico a palcos de há dez anos. Já que estamos num mundo em que a imagem conta tanto, porque não fazer um palco futurista? Além disso, muitos dos cenários das atuações pareciam demodés e coisas tiradas de programas básicos de edição.

Em relação à abertura e aos interval acts, também não foram dos mais espectaculares de sempre. O que salvou mesmo a Áustria foi a extraordinária Conchita Wurst. Aliás, ela deveria ter sido a única apresentadora da edição - as outras três não tinham paixão eurovisiva e não eram nada carismáticas, quantidade não é sinónimo de qualidade. (Suécia, por favor, Petra Mede para o ano!)


Pouco original também achei o grafismo oficial da edição, bem como os grafismos das votações e das revelações dos finalistas. Todos muito iguais aos anos anteriores, não foi investido esforço neste ponto. 

Além disso, os planos de câmara em algumas atuações são de 'cortar à faca': prejudicou bastantes países como Holanda e Espanha - já para nem falar do fumo a mais na atuação da Geórgia na final. Também não nos podemos esquecer nas falhas de transmissão: há coisas que acontecem à última da hora, e as apresentadoras deram muito bem conta do recado, mas já se anda a preparar isto há um ano...

Porém, nem tudo é mau. A Áustria levou à letra o seu slogan "Building Bridges" e acho que a mensagem principal foi passada e, apesar de muitos criticarem, adorei os postcards, até eu fiquei com vontade de fazer cada uma daquelas experiências!.


Reparei, ainda, que não festejaram muito a vitória antes de divulgarem todos os anos. Apesar de não ser a favor disto, tornou-se este ano tudo mais leve e menos chocante. No geral, foi um serviço da ORF mediano. Não me encheu as medidas, mas também não foi mau, de todo. 

Falando, agora, de resultados... Como todos os anos, há justiças e injustiças. No geral, os resultados foram equilibrados. A segunda semifinal foi, mais uma vez, bastante superior à primeira.


Na 1ª semifinal, sinceramente, não esperava a não-passagem da Bielorrússia. Foi a única. Desde que a nova versão da música foi lançada que a Bielorrússia subiu muito nas apreciações dos fãs e até nas casas de apostas - além disso, os representantes foram completamente irrepreensíveis.

Fiquei bastante surpreendido pela passagem da Hungria. Compreendi o porquê e admito que Boggie fez um trabalho muito sereno e requintado, mas nunca esperei que tivesse força para chegar a uma final. Quando se levam temas com mensagens, é natural que passe. Ingénuo, eu! As melhores da noite, a meu ver, foram mesmo a Geórgia e a Bélgica!


A 2ª semifinal foi, sem dúvida, mais desesperante. Acertei algumas passagens, mas não todas. Apesar de a melhor da noite ter sido mesmo a Letónia ou Israel, realço também a excelente prestação de Montenegro. A maior desilusão foi mesmo a Islândia - a atuação foi bastante infantil e com alguns desafinanços à mistura.

Já as restante não-passagens já se esperavam algumas... Ponto positivo para o esforço da Suíça e para a qualidade vocal da cantora de Malta! A Irlanda e a República Checa não surpreenderam, e o pior da noite, como já se podia esperar, foi mesmo São Marino.

Em relação a Portugal, já esperava este resultado. A Leonor Andrade foi mal aproveitada pela RTP, e tentou fazer uma omelete sem ovos. Sinceramente, acho que a RTP não merece artistas como a Leonor - dignas de estarem em palcos internacionais e com uma excelente atitude e 'vibe'. O palco da atuação não estava de todo bonito, o coro estava mal aproveitado, os planos de câmara não foram famosos, nem a publicidade e cobertura que a RTP fez do evento. Milagres não se podem esperar, e se isto continuar assim então nem vale mesmo a pena participar. Não é por trazer x ou y que conseguimos melhores resultados, é, sim, mudando as mentalidades das pessoas que estão a trabalhar na RTP. Os fãs têm de se unir e fazer com que a sua voz chegue à emissora nacional. Isto assim não pode continuar! Chega! Chega de eu preferir que um país passe à final em 10º lugar e que esse país não seja o meu! Chega de não sentir falta nenhuma na final eurovisiva! Chega!

Apesar de adorar a Leonor, não posso deixar de referir, como já o disse em diversas ocasiões, que a Yola Dinis é, e sempre será, a minha vencedora de 2015. Nuno Feist e Nuno Marques da Silva, continuem a produzir temas como "Outra Vez Primavera", por favor. Mas acho que nem com a Yola passávamos à final. Não se trata aqui de cantores ou de músicas, trata-se sim de tudo o que a RTP faz com o Festival. Se há um mau uso do mesmo por parte da emissora, não podemos esperar grandes feitos.


Em relação à Grande Final, e destacando o top6, compreendo o porquê de os países indicados terem acabado lá. A Rússia, apesar de ter estado muito bem e com uma boa campanha pré-Eurovisão, não considero que fosse merecedora do 2º lugar - a música é bastante demodé e já batida em lides eurovisivas; a Itália deveria ter sido a vencedora deste ano, provando que o bom gosto e as línguas nativas continuam a levar a melhor no concurso; e, a seguir, em 4º, em 5º e em 6º lugares seguem-se as músicas mais originais a concurso e as mais contextualizadas consoante o cenário musical atual mundial: Bélgica, Austrália e Letónia. Em relação à Austrália, tenho de referir que não me fez urticária ver este país na Eurovisão (também, perguntemos, o que faz Israel em competição não sendo europeu?) e, se continuar a levar propostas idênticas a "Tonight Again", é muito bem-vinda!


Em relação aos restantes pré-finalistas: o Reino Unido merecia ter ficado com nul points; a Áustria e a Alemanha foram muito desvalorizadas; e os maiores choques foram mesmo os resultados de França e Espanha, principalmente o de Espanha. Porque razão a Espanha acaba sempre tão mal, sendo quase sempre uma das favoritas dos fãs? Porque razão a Espanha acaba sempre tão mal, quando faz uma campanha bombástica antes da Eurovisão e leva artistas muito dignos de representarem o país? A EBU tem de estar atenta a este tipo de coisas. Se a Suécia investe na Eurovisão e é recompensada, a Espanha também o merece. Depois não se queixem que os países que mais investem percam o interesse no certame e cheguem até mesmo a sair do concurso. Muitos deles são os que dão vida ao festival!


A Eslovénia e a Sérvia, apesar de divertidas, não mereciam os lugares que tiveram. Houve também outras atuações que me desiludiram bastante, mas que também mereciam melhores lugares: falo da Albânia, por exemplo. A Grécia também teve um resultado bastante mau, perante a capacidade e qualidade interpretava da cantora; e Montenegro merecia, no mínimo, top10!

Como lugares justos, destaco os da Estónia, Noruega, Israel, Geórgia e Azerbaijão - todos eles com excelentes cantores e grandes músicas. Também justos lugares para as músicas com mensagens sociais - Roménia, Hungria, Polónia, Arménia e Lituânia. Estes últimos não tinham músicas para vencer, mas foram um bom leque de mensagens importantes na final. Que a Eurovisão continue assim!

Notou-se que este ano, apesar das polémicas das votações, houve um equilíbrio: os nórdicos ficaram bem, como alguns países centrais e alguns de leste. Só ficou mesmo a faltar os do Sul, só a Itália é que conseguiu um bom lugar...

Em relação à Suécia, a vencedora, apesar de não ser de todo a minha favorita, mereceu o prémio. Ficaria muito mais feliz se fosse entregue a uma Itália, ou nos meus sonhos a uma Espanha, mas a Eurovisão está em boas mãos. Foi entregue ao país que mais investe, este ano celebravam-se os 60 anos do concurso e tinha de ser entregue a um país que tratasse bem do mesmo no próximo ano (a Rússia nunca!). A Suécia já provou, milhares de vezes, que é bombástica a organizar um ESC - e se 2013 não foi tão bom como muitos esperavam, a SVT vai tirar desse ano alguns ensinamentos e melhorá-los em 2016.

"Heroes" foi destacado pela sua imagem, e não tanto pela sua qualidade musical - um apontamento que pode servir de reflexão. Será que hoje em dia conta mais a qualidade imagética do que a musical, num concurso de música? Apesar disto, tenho a certeza absoluta que "Heroes" vai ficar para sempre recordndo na história eurovisiva, e que já está a dar uma excelente imagem ao concurso, no exterior.

A Eurovisão está cada vez melhor!


Imagens: Bilder-t-online, Oikostime, TVE e Haveeru/Vídeos: Eurovision.tv
02/06/2015

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