[ESPECIAL]: em dia de eleições, relembre as músicas de intervenção eurovisivas mais marcantes de sempre


Este domingo é dia de eleições legislativas. Já foi votar? Caso ainda não o tenha feito, acabe de ler este texto e dirija-se ao local onde deve votar. A menos que já sejam 18h30, nesse caso pode parar de ler, ir votar e continuar a ler este texto depois.

Ao longo dos anos foram várias as canções de intervenção que vimos no palco eurovisivo, apesar de o regulamento ser bem claro: "letras, discursos, gestos de natureza política ou semelhante não são permitidos durante o ESC. (...) Em caso de incumprimento, a canção pode ser desqualificada".



Nos anos 70, Portugal foi provavelmente o país que mais canções de teor político enviou à Eurovisão. Em anos de ditadura e onde o voto era um direito praticamente não existente, Fernando Tordo levou "Tourada" ao Festival. O título da canção nada mais é que uma metáfora para o governo ditatorial de Marcelo Caetano e acabou por conseguir o 10.º lugar e tornar-se numa das mais famosas canções de sempre.


No ano seguinte Paulo de Carvalho representa Portugal e fica no último lugar da competição. Apesar do mau resultado, "E Depois do Adeus" ainda hoje é alvo de estudo dos manuais de história pelo seu papel na revolução de abril que acabou com o Estado Novo. "E Depois do Adeus" é uma das senhas da revolução e foi tocada às 22h55 do dia 24 de abril de 1974, dando ordem às tropas que se preparassem. Porque é que foi escolhida? Pelo seu conteúdo não-político. Assim ninguém desconfiaria de nada até que fosse tocada pela Renascença a segunda senha: "Grândola Vila Morena".


Em 1975 ainda se falava da revolução. Portugal leva "Madrugada" à Eurovisão, uma canção sobre o recomeçar de um país que vivia num regime ditatorial. Uma letra sobre a alegria do povo português.


Já no novo milénio são muitas as canções de intervenção política;  umas mais óbvias que as outras. Em 2000 os Ping Pong cantaram "Be Happy" e no final da atuação havia no palco bandeiras sírias e israelitas. Porquê? Na altura os dois países estavam em guerra e a canção era um apelo à paz das duas nações. Os políticos israelitas ainda pediram a desqualificação do grupo por parte da EBU por achar que estes não iam de acordo aos ideias do país. Foi um apelo que acabou no 22.º lugar com apenas 7 pontos.


Em 2009 a Geórgia ficou de fora do concurso por se recusar a alterar a música ou rescrever a letra de "We Don't Wanna Put In". À primeira vista parece só mais um título, mas é o caso mais recente de uma desqualificação por conteúdo político. Em guerra com a Rússia, a Geórgia escolheu ser representada por uma música que fazia claras alusões ao (ainda) Presidente da Rússia, Vladimir Putin. Sem querer alterar a letra, a delegação da Geórgia acabou por não se apresentar em Moscovo.


Nos anos seguinte houve novo protesto. Desta vez foi a Lituânia que levou ao Festival os InCulto com "Eastern European Funk". Numa divertida música que falhou por pouco o acesso à final, protestava-se sobre o termo "Europa de Leste", muitas vezes usado de um forma pejorativa. Há queixas de falta de igualdade apesar de fazermos todos parte da União Europeia, e também referências aos que deixam estes países de leste em busca de vidas melhores e que acabam a servir os outros europeus.


E porque nem só de contestações antigas se faz a história portuguesa: em 2011 os Homens da Luta vencem o Festival da Canção e vão até à Alemanha representar Portugal. Muito assobiados na final nacional portuguesa, os Homens da Luta contestavam o governo português e as políticas de austeridade em ano de eleições. Acabaram por não ir à final, mas passaram a mensagem (ou pelo menos tentaram).


Um ano mais tarde Rambo Amadeus sobe ao palco com um cavalo de Tróia para criticar a política adoptada pela UE. Foi o primeiro a pisar o palco nesse ano e falou da crise do Euro, das políticas ambientais e ainda teve tempo para criticar o festival. Tudo isto num tom irónico. 


Se Portugal contestou a crise em 2011, a Grécia fê-lo dois anos mais tarde. Num tom bem mais descontraído (e que deu ao país o 7.º lugar), "Alcohol is Free" nada mais é que uma metáfora em relação à situação grega. Fala-se em mares agitados, brincadeiras com os dinheiros gregos e numa possível salvação (que parece não chegar). 


Este ano a Arménia viu-se obrigada a alterar o título da canção de "Don't Deny" para "Face the Shadow". Mais nada foi alterado mas a alusão política é óbvia. 2015 marca os 100 do genocídio que matou mais de 1.5 milhões de pessoas no final do Império Otomano. Oficialmente a canção é sobre os valores universais.


Ainda este ano há uma letra de amor que pode ser entendida como um "pedido de ajuda". "One Last Breath" pode parecer inofensiva, mas pense lá uns minutos sobre a letra. Se pensarmos nisso, frases como: "I guess I’m just no one, you killed me and I am done, without a gun",  "I feel betrayed, just can’t be brave, without faith; How could you leave?", "Come back and save me, don't want to be alone, nothing left", "I struggle to survive, I'm still alive", podem muito bem ser referências à situação política grega que, recorde-se, em maio era ainda mais grave. Na verdade, em toda a letra não há indicação de que esta se refira a um amor acabado. 

A Eurovisão não devia aliar-se ao mundo político, mas você, que está neste momento a ler este texto, deve. Portanto, se ainda não votou, faça-o. Não fique em casa à espera que os outros decidam por si. Esse tempo já lá vai. É o tempo das touradas. Foi preciso percorrer um longo caminho para que todos tivéssemos o direito de ir votar. Não desperdice esta luta, até porque, mais do que um direito, votar é um dever!


Imagem: wikipedia.pt/Vídeos: 2010ESC2011, Eurovision.tv, eurosongcontest2009, João Velada, tasosk3, JMFV, 2000ESC2003
04/10/2015

Sem comentários


Não é permitido:

. Publicar comentários de teor comercial ou enviar spam;

. Publicar ou divulgar conteúdo pornográfico;

. O uso de linguagem ofensiva ou racista, ou a publicação de conteúdo calunioso, abusivo, fraudulento ou que invada a privacidade de outrem;

. Desrespeitar o trabalho realizado pelos colaboradores do presente blogue ou os comentários de outros utilizadores do mesmo - por tal subentende-se, criticar destrutivamente ou satirizar as publicações;

. Divulgar informações sobre atividades ilegais ou que incitem o crime.

Reserva-se o direito de não serem publicados comentários que desrespeitem estas regras.

Com tecnologia do Blogger.